
sob o jardim estão sepultados os sonhos que nós desacreditamos, lá estão as horas que perdemos pensando um no outro, as promessas e juras revogadas, os orgasmos esquecidos, o desejo engolido por um buraco negro. por este abismo foram tragados sorrisos que não voltarão, nele se escoa teu cheiro, as dobras de tua saia, a cor de teu esmalte, teu nome que escrevi num bilhete, sabores e aromas sobre a mesa de jantar. projetos, planos, sugados para algum limbo ou purgatório, suspensos em alguma órbita intransitável e improvável. o tempo é um brinquedo quebrado.
alguma coisa se partiu na atmosfera e sombras emergem do corpo do mundo com a incessante enunciação de um espaço agora vazio. eterna e triste é a noite, esse território onde me vejo apátrida, refugiado, imigrante, deslocado. sob o signo do silêncio, minhas fronteiras são apenas traços arbitrários criados por tua partida, onde a memória é apenas o impreciso tempo que me resta por viver. compulsoriamente recebi de ti outro caminho, outra viagem, outra existência, que perpassam a simetria da ambiência que foi tua. estranhamente tu permaneces, acima do tempo-espaço, tuas antigas palavras suturadas ao mutismo de minha boca. como se tivesses abolido os calendários e os relógios, como se tudo o que vivemos não possuísse mais existência concreta, nossos corpos metamorfoseados em seres abstratos. e na fuga ininterrupta deste pesado Universo em dissolução, a contínua convulsão, a percorrer distâncias intermináveis, sem outro rumo definido a não ser o de sobreviver. o caminho, sem mapas ou direção, não me comove, acompanho surdamente a paisagem. procura e perda, presença e ausência: estranheza ao lembrar a textura de tua pele, de tua voz e de meus enganos. Resta esquecer teus contornos, esquecer ferida e cicatriz. esquecer os lugares que compartilhamos. esquecer teu instinto, teus passos, teu nome. esquecer cada vértice de sentido em nossas histórias e me atirar à desordem das línguas e dos gestos possíveis.
antes de para mim existires, antes que fosse possível haver lembranças, no momento em que tua vida era por mim desconhecida, quando o meu dia tinha outras nuances que não tuas formas, antes de te tornares combustível do meu desejo, antes mesmo que eu pudesse imaginar que um dia chegarias, antes que tivesses um nome, um corpo que minhas mãos pudessem tocar, antes que à noite, olhando o mar, a brisa me trouxesse o teu cheiro. quem éramos nós, além de estranhos fitando o porvir? e se o tempo causou e curou feridas, e se louco, cego e oco me tornei quando partiste, agora, com tua volta, ressuscitas para que novamente possa te conhecer, alguém que minhas mãos nunca tocaram, alguém que minha língua nunca sorveu. novamente desconheço a cor de teus pelos que um dia roçavam em meu rosto. do deserto que atravessei, restou somente a dúvida de que realmente existiu. te recrias nova, outra, livre de tua história, e me concedes a absolvição da minha própria história. para deitar-me pela primeira vez e de novo a teu lado, linda e nua, e poder te invadir todas as tuas frestas.

descubro em minhas mãos o que tinha como inalcançável. estações afora desejando o teu corpo, recriando-o em outros corpos, uma realidade tão distante que hoje, ao tocá-la, me pergunto se não é ficção. uma fome que mesmo depois de tanto tempo não pôde ser extinta. e se hoje posso enfim vê-la aplacada, posso também vê-la renascer imediatamente após a saciedade. perdi a conta dos dias em que a realidade me privava de ti, a inventar desejos alternativos em cada peito que meus lábios tocavam. por seres inalcançável, em minha incompletude, a saciedade possível enganava a fome. tenho enfim a fome que me completa, a fome que não mais me tortura, mas que me alimenta. a fome que me liberta, a fome que tuas formas me oferecem. a fome de ti, sorriso e bunda. a fome de teus desejos, a fome antes martírio e agora deleite.
na primeira manhã não posso dizer que encontrei o inesperado. aquela manhã, tantas vezes adiada, finalmente se revelava e agora nascia, contra a minha vontade, ainda na noite emaranhada. sonâmbulo ainda, encontrei vestígios do teu corpo. teu cheiro permanecia na memória, restos do teu riso continuavam presentes na cena. tuas mãos a me tocar, teu corpo sob o meu, na mesma cama em que prometemos um ao outro nunca dizer-mos adeus. a luz imprecisa daquela manhã não me permitia acreditar que o som da tua voz havia cessado, restando agora apenas a ruidosa agonia dos espelhos a me despertar para o indesejado, o inevitável e o desejo de não acordar nunca mais. os rastros da minha saliva pelo teu corpo eram agora teoremas, a concretude definitiva da tua partida, na mesma cama em que me traíste.
foi só quando me deixaste: na ausência de chão é que pude construir o meu chão e minha pátria, encontrei a saída do labirinto por onde vagava, entendi que labirinto era o teu nome. porque tu tinhas olhos onde eu me perdia e eternamente perdido em teu encanto, não me permitia enxergar outros caminhos e outros encantos. porque teus braços docemente me acorrentavam e só a ausência deles me possibilitou transpor fronteiras, alcançar outros horizontes além daqueles por ti decretados. porque tua voz era o canto a atrair o incauto navegante para o abismo das águas e me contava coisas em que só eu acreditava. porque tu dizias meu nome e com os olhos fechados, tua voz penetrava minha carne suplantando o ruído do mundo, dentro da noite que eu supunha eterna. porque tua pele e teus cabelos falavam o mesmo idioma das minhas mãos, que acreditavam ser ouvidas. porque eu tinha a certeza que não poderia me entregar a mais ninguém sem que para isto tivesse que trair a mim mesmo e que também não poderias jamais ser de outro, a não ser que de ti eu desertasse e me tornasse apátrida. foi só quando me deixaste: por mais estranho que pudesse parecer, pude enxergar toda a estranheza de que eu era feito.

maior se tornou a urgência de viver quando descobri que já não estavas mais aqui. tua partida, ainda que incômoda, acabou por gerar, à minha revelia, a possibilidade de outras chegadas. de ti restou algum ruído oculto em algum canto esquecido da casa, que agora se transmuta em outra voz. de ti somente um vestígio, uma cor na minha roupa, um fio de cabelo branco que o espelho me mostra. uma ruga em teu rosto quando sorrias, que ressurge no comercial de tv, no outdoor, no encarte do supermercado e que rápido se desfaz ao mudar de canal, ao dobrar a esquina. a certeza do vão que esta ausência em mim ocupa agora é também o espaço livre para outras construções. às vezes quase não penso em ti, como se nunca tivesses existido, como se eu já não te esperasse mais. quem pode negar que fui eu que te inventei? que necessidade tenho em ouvir a tua voz se o silêncio a reproduz e me restitui a minha própria voz? embora estejas no corpo das outras que busco, nos bares, nas baladas, nos puteiros, a noite cega minha visão e te desintegra pela manhã. embora estejas atrás de cada porta, involuntariamente, cada mentira que legitimo segue apagando o teu nome. sem querer me deste as chaves da prisão que em ti encontrei.
o tempo acordou seus sentidos, seus desejos, seu sabor de mulher. alguma coisa dentro dela agora grita, doida, à tarde e pela noite adentro. grita, debaixo de seus poros. debaixo do sol e também sob a mais escura lua. alguma coisa geme, mesmo enquanto dorme e em seu sonho se enovela, tornando a trama da noite mais densa e o tempo mais leve. alguma coisa se propaga no confuso idioma de suas mãos, que buscam alguma coisa que nem ela sabe exatamente o que é, mas que saberá quando encontrar outras mãos. se propaga no cheiro de fêmea que começa a brotar de sua pele e que todos começam a perceber. se propaga no movimento de seus cabelos, indício de sua inquietude. se propaga na essência de sua ansiosa língua em busca do gosto de outra língua e na música que se entrelaça em suas pernas. seus temores antigos e seus terríveis precipícios já não existem mais. há agora portas nunca antes imaginadas e a surpresa que reservam passou a se chamar brinquedo. suas pétalas que agora se abrem lhe imploram a entrega, pois o desejo já é maior que o medo.
no caminho que em mim percorres deixas teu visgo. palavras escritas com o suco de tuas frestas molhadas. versos que colho na umidade e no calor dos líquidos que brotam pelo teu corpo.
pernas entre as pernas que agora, juntas, se encontram. na tácita simetria dos corpos, os desejos e suas formas se confrontam. pernas que se cruzam, entrelaçam. na aparente luta que travam, escondem os pretextos da pele, dos pelos, da ânsia e da vulva. o mel que escorre entre as pernas que abraço, que envolvo, que acendo e arregaço, é o destino a me conduzir à tua fenda, teu úmido paraíso. no labirinto das pernas encontra-se o teu maior sorriso.
beijo as pétalas da rosa.
e em minha boca
o meu amor goza.
levo comigo tantas causas perdidas, noites sem sono, tantos dias calados. as ruas transpiram o riso mas cada rosto é vítima do amor silenciado. ando por ruas quase concretas onde minhas intenções são secretas. ando por ruas quase desertas onde minhas pretensões não têm nexo.
houve dias em que não permiti amanhecer, estações que não admiti que desabrochassem. vaguei, perdido, confuso em meus próprios passos, até esquecer o meu nome, até me tornar aço. quantos dias, quantas estações vivi assim, esperando que nascesse uma rosa no asfalto? quantas vezes chorei, olhando para o passado?
a porta aberta do teu quarto conduz ao átrio das questões sem resposta. passeio cada interstício de teu corpo neste encontro onde copulam desejo e dor, a inevitável constatação do passado dentro da noite fértil. para quem espera o nascer do dia, renascer é uma necessidade. depois de adormecermos, nossos fôlegos enfim se conciliam e não enxergamos mais a frágil barreira entre ódio e amor.