9/9/2009



alguma coisa se partiu na atmosfera e sombras emergem do corpo do mundo com a incessante enunciação de um espaço agora vazio. eterna e triste é a noite, esse território onde me vejo apátrida, refugiado, imigrante, deslocado. sob o signo do silêncio, minhas fronteiras são apenas traços arbitrários criados por tua partida, onde a memória é apenas o impreciso tempo que me resta por viver. compulsoriamente recebi de ti outro caminho, outra viagem, outra existência, que perpassam a simetria da ambiência que foi tua. estranhamente tu permaneces, acima do tempo-espaço, tuas antigas palavras suturadas ao mutismo de minha boca. como se tivesses abolido os calendários e os relógios, como se tudo o que vivemos não possuísse mais existência concreta, nossos corpos metamorfoseados em seres abstratos. e na fuga ininterrupta deste pesado Universo em dissolução, a contínua convulsão, a percorrer distâncias intermináveis, sem outro rumo definido a não ser o de sobreviver. o caminho, sem mapas ou direção, não me comove, acompanho surdamente a paisagem. procura e perda, presença e ausência: estranheza ao lembrar a textura de tua pele, de tua voz e de meus enganos.  Resta esquecer teus contornos, esquecer ferida e cicatriz. esquecer os lugares que compartilhamos. esquecer teu instinto, teus passos, teu nome. esquecer cada vértice de sentido em nossas histórias e me atirar à desordem das línguas e dos gestos possíveis.

posted by jardim at 20:09 | in:
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